O Chega de Acidentes é um movimento que pretende implantar um Plano Nacional de Segurança Viária no Brasil, chamando a atenção da sociedade e autoridades para os problemas relacionados à falta de segurança no trânsito. Com o auxílio de um relógio virtual que contabiliza o número de vítimas de acidentes de trânsito, disponível, desde setembro de 2009 no site www.chegadeacidentes.com.br, o movimento acredita que é preciso despertar a consciência da população para o problema, estimulando comportamentos seguros. Em entrevista à Agência ABCR, José Aurélio Ramalho, diretor de operações do Centro de Experimentação e Segurança Viária - Cesvi Brasil, uma das entidades criadoras do movimento, explica como a campanha foi criada e sua importância para a condução e transporte mais seguros.
Agência ABCR – Quais são os principais projetos e frentes de atuação do Centro de Experimentação e Segurança Viária - CESVI BRASIL?
José Aurélio Ramalho
José Aurélio Ramalho - O Cesvi Brasil desenvolve diversos tipos de ações e projetos relacionados à segurança viária e veicular, como campanhas, cursos, palestras, convênios e pesquisas. Por meio dessas ações, o Centro vem contribuindo com os principais órgãos públicos e com a sociedade para tornar o trânsito brasileiro cada vez mais seguro.
Agência ABCR – Qual a participação do Cesvi Brasil como membro do RCAR (Research Council for Automobile Repairs), um conselho internacional de centros de pesquisa especializados em reparação automotiva e segurança viária?
JAR - O RCAR é um conselho internacional que reúne centros de pesquisa para o setor automotivo, colaborando para a redução de acidentes. Para que esse objetivo seja atingido, o Cesvi realiza pesquisas nas áreas de segurança viária e veicular, novos equipamentos e processos, métodos de avaliação de empresas e trabalhos, mudanças na legislação de trânsito, entre outros. As experiências acumuladas são apresentadas, uma vez por ano, em um evento em que todos os centros membros se encontram para um intercâmbio de informações. Além disso, o Cesvi Brasil foi a única empresa privada convidada para participar da delegação brasileira na I Conferência Interministerial Global sobre Segurança Viária, uma iniciativa conjunta do Banco Mundial, da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), com o intuito de gerar uma declaração de todos os 150 países participantes para que a ONU estabeleça, em sua Assembleia Geral, a Década de Ações para a Segurança Viária, no período de 2011 a 2020, com a meta de estabilizar e reduzir os acidentes de trânsito em todo o mundo.
Agência ABCR – Como foi criado o movimento “Chega de Acidentes”? Qual seu principal objetivo?
JAR - O movimento Chega de Acidentes é uma ação de entidades com um histórico de lutas em prol da segurança no trânsito brasileiro. O Cesvi Brasil, a Abramet e a ANTP lançaram esta ação, propondo a implantação de um Plano Nacional de Segurança Viária (PNSV) no Brasil. Chamam, assim, atenção para o gravíssimo quadro de acidentes de trânsito, indicando o caminho que a OMS, já provou ser eficiente em diversos países. A criação de um plano nacional é necessária ante a diversidade de fatores que influem na ocorrência dos acidentes de trânsito. Acreditamos que a redução da quantidade de vítimas depende de uma ação coordenada que leve em conta essa complexidade, característica que só um Plano Nacional de Segurança Viária, feito com a participação e apoio de órgãos públicos e a sociedade em geral, pode proporcionar. Desde sua criação, em setembro de 2009, o movimento vem agregando cada vez mais apoiadores, como a ABCR. No site www.chegadeacidentes.com.br
um relógio virtual estima a evolução da quantidade de vítimas fatais e não fatais no Brasil, e o impacto econômico dos acidentes e suas vítimas.
Agência ABCR – Qual o principal dado estatístico que o movimento pretende reverter?
JAR - Acreditamos que a criação do Plano Nacional de Segurança Viária e, posteriormente, sua implantação podem reduzir significativamente a quantidade de mortes e feridos no trânsito. A contagem das vítimas começou em 18 de setembro de 2009 e só vai parar quando um Plano Nacional de Segurança Viária for implantado no País.
Agência ABCR – Até agora, quais são os principais dados obtidos com o contador?
JAR - A intenção do contador é expor o gravíssimo quadro de acidentes de trânsito no Brasil. Queremos contar com a ajuda das entidades que já apoiam o movimento, daquelas que desejam se associar, e principalmente da sociedade civil, por meio de abaixo assinado, para alcançar o objetivo principal do movimento que é a criação do PNSV, estabelecendo metas de redução de acidentes ano a ano, se possível por estado e cidade.
Agência ABCR – Qual a expectativa do movimento em relação à criação de um Plano Nacional de Segurança Viária?
JAR - A expectativa é conseguirmos a criação do Plano Nacional de Segurança Viária, contando com a participação da sociedade civil, entidades ligadas a trânsito e transportes, saúde, organizações não governamentais e, quem sabe, entidades governamentais. No site do Movimento “Chega de Acidentes” é possível firmar a adesão ao movimento por meio de abaixo assinado.
Agência ABCR – O Cesvi Brasil considera que a sociedade está bem informada em relação à prevenção de acidentes? O que mais pode ser implementado nesse sentido por parte do poder público e instituições do setor?
JAR - De modo geral a sociedade está informada de como proceder para evitar acidentes, mas falta às pessoas a cultura da segurança, de respeito às normas de trânsito, não apenas por obrigação, mas pela consciência de que isso lhes propiciará mais segurança, melhor qualidade de vida no trânsito. A mídia seria um importante canal de comunicação para dar ênfase ao problema trânsito, sempre no sentido de orientar para que um acidente noticiado, não se repita, e não apenas apresentar o fato.
Agência ABCR – Para dar maior visibilidade ao movimento, existe a intenção de se criar um “obitômetro” físico, semelhante ao impostômetro instalado na praça da Sé, no Centro de São Paulo?
JAR - Sim. Temos o projeto pronto para a implantação destes contadores físicos nas cidades de São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Brasília. No momento buscamos patrocínio para essa ação.
Agência ABCR - Por que é tão difícil convencer as pessoas de que o risco de acidentes é alto quando se dirige alcoolizado? Como vocês avaliam os resultados obtidos até agora com a lei seca?
JAR - Acreditamos que esta dificuldade está associada a questões culturais e à ideia de impunidade. Podemos nos arriscar em dizer que todos os condutores têm informação das influencias negativas da mistura álcool e direção. Entretanto, muitos acreditam que podem controlar ou compensar a perda dos reflexos motores provocados pela intoxicação alcoólica ou de substâncias análogas, sem descartar que alguns dos condutores ainda tratam o carro como uma extensão de sua casa. A lei seca, sem dúvida, trouxe a redução de 22,5% da mortalidade em acidentes de trânsito em seu primeiro ano de vigência. Entretanto, percebe-se algum arrefecimento nas operações de fiscalização e na pouca eficácia das sanções administrativas e penais, motivos que podem gerar nos condutores a baixíssima preocupação em ser fiscalizado e, por conseqüência, de sofrer as sanções. Entre agosto e setembro de 2009, o Cesvi realizou uma enquete que mostrou que 68,16% dos participantes estão certos de que é baixa a chance de serem parados por uma operação da polícia caso estejam alcoolizados.
Agência ABCR - Como os senhores avaliam o progresso das ações de educação sobre segurança no trânsito no Brasil?
JAR - As ações existem, mas são tímidas, acontecem de maneira isolada, é necessário que existam ações coordenadas que tenham um discurso alinhado, com os mesmos objetivos.
Agência ABCR - O que as pessoas ainda precisam aprender sobre segurança no trânsito?
JAR - Aprender a adotar hábitos seguros no trânsito. Esta mudança de comportamento exige do condutor a alteração de hábitos que já podem estar sedimentados há muito tempo em sua forma de dirigir. Daí, portanto, a necessidade de um esforço que, as vezes, a pessoa não está disposta a fazer. Em nossa opinião é fundamental à segurança no trânsito essa mudança de comportamento e a adoção de hábitos seguros quando na condução de um veículo. Por exemplo, dar seta ao fazer uma mudança de faixa e/ou conversão, dirigir de forma educada, dando prioridade aos mais frágeis e menores (motos e pedestres). Assim como fazemos quando estamos a pé, sempre damos passagem a um idoso com dificuldades de locomoção.
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